Dia da Rainha no Jordaan

30 - 04 - 2008

Criei a expectativa de que no Dia da Rainha encontraria o abajour ou a luminária que há anos procuramos. Não são peças assim tão exóticas. Bem, nem sabemos o que queremos. Mas numa feira livre como essa, imaginei que alguém poderia querer se desfazer da iluminação ideal para o nosso lar.

Para ter mais chance de achá-la, pensei em acordar cedo. As pessoas podem a ocupar as ruas com suas mercadorias a partir das seis da manhã e objetos mais desejados são os primeiros a serem vendidos.

O meu consumismo, no entanto, não era assim tão aguçado! Coloquei o despertador para às sete e meia. Acabei levantando às nove, o namorado só saiu da cama às dez e meia e por volta do meio-dia montamos em nossas bicicletas rumo ao Jordaan, um bairro em Amsterdã.

Orange
Apesar do dia nublado, muitas pessoas caminhavam ou pedalavam com a intenção de comemorar o aniversário da já falecida rainha Juliana. A maioria se deixa inspirar pela cor da família real. Quem tem algo laranja no guarda-roupa aproveita para vestir. Os mais discretos usam uma fitinha no cabelo ou um lenço no bolso. Mas há também os que usam paletó ou vestido, combinam com chapéu e sapato de laranja e até pintam o rosto.

Escrevi uma vez que por aqui se diz gefeliciteerd para tudo. Há quem diga para você “gefeliciteerd met de koningin” (parabéns pela rainha).

Há um sentimento de “hoje tudo pode” no ar…

Deixamos nossas bicis na Marnixstraat e seguimos a pé rumo ao Bloemgracht. Uma enorme dragqueen, vestida de azul e sentada numa cadeira gigante, aguardava os clientes: “Aproveite para beijar a Rainha”, dizia a plaquinha que oferecia os serviços dela.

Mais adiante, um garotinho de uns 8 anos segurava uma caixa de sapatos com furos na tampa e pedia 20 centavos para quem quisesse olhar o que tinha lá dentro. No nosso caminho havia também um coro de mulheres que cantava e, em seguida, vendia pedaços de bolo, bem como uma mesa totalmente verde-amarela servia caipirinha por cinco euros ao som de Daniela Mercury.

Como em qualquer feira livre, tinha de tudo para vender: LPs, CDs e livros, eletroeletrônicos e eletrodomésticos, panelas e louças, artesanatos, bolos e tortas caseiras, cafés, sucos e cervejas, quadros e muita, mas muitas roupas e sapatos usados. A idéia é esvaziar o porão e faturar uma graninha.

“Maak me los” (me liberta!), gritava uma mulher. Libertá-la das mercadorias, claro! Típico de uma feira livre, as pessoas soltavam a voz para atrair os fregueses.

Feira personalizada
Os produtos oferecidos não são tão tradicionais como em uma feira normal. Eles são bastante pessoais e nem sempre há mais de um exemplar à disposição; é possível identificar o vendedor com a mercadoria. Principalmente em se tratando de roupas. Antes de olhar para uma arara com peças femininas, via quem as vendia. Se a mulher tivesse mais ou menos as mesmas medidas que eu tinha mais chances de encontrar uma peça que me servisse.

Seguimos andando pelas ruelas estreitas, aconchegantes e povoadas por quase duas horas. O namorado encontrou um livro que lia na infância. Naquele momento, o sentimento que o preenchia quando era criança tomou conta dele e lá se foram cinco euros! Uma moldura de quadros e um tucano de madeira levaram-lhe mais um euro e cinqüenta!

Jardim quase secreto
A tarde começava a esfriar e os chuviscos começavam a incomodar. Decidimos entrar numa rua vazia como maneira mais rápida para voltar às bicicletas. Vi uma grande porta verde de madeira e pregada, ao lado dela, uma folha plastificada com “instruções de uso”.

Chamei o namorado, que caminhava há alguns passos a minha frente, fiz sinal de que ia entrar e abri a porta. Ele me olhou de maneira estranha, quase que perguntando se eu sabia o que estava fazendo, mas decidiu me acompanhar. Sentamos num dos jardins internos do bairro. Embora os prédios que cercam os chamados hofjes sejam moradias particulares, qualquer pessoa pode entrar e aproveitar da tranqüilidade que o espaço oferece.

“Parece que voltamos alguns séculos no tempo”, disse o namorado boquiaberto. Mas a garoa engrossou e nos pôs a caminhar. Agora é caminhar até as bicis, pedalar e retornar ao conforto da nossa casa… sem a lâmpada ou abajour que desejava.

Leia também:
Na aula de holandês: a holandesa

E veja também:
Fotos do dia da Rainha 2008

Entry Filed under: Brasil-Holanda, Típico holandês. Tags: , , , , .

2 Comments Add your own

  • 1. Valerie  |  03 - 05 - 2008 at 7:26 pm

    Muito interessante seu post!! Gostei!!!!
    E Gefeliciteerd!!! só pra entrar no clima!:)
    Bj

    Responder
  • 2. Re: oi Batateira « Submarina  |  04 - 05 - 2009 at 7:43 pm

    [...] três atuaram como o prefeito de Apeldoorn (a cidade onde a família real tentou celebrar o dia da Rainha) e outros quatro fizeram o papel de jornalistas que queriam saber da autoridade da cidade “o [...]

    Responder

Leave a Comment

Required

Required, hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Tags

alimentação amigos Amsterdã animal de estimação Aprender holandês artes plásticas bicicleta Brazilië capoeira cinema consumo cultura economia Estação Central experiência pessoal foto Hilversum história Holanda II guerra mundial Imigração livros meio ambiente Ministério holandês das Relações Exteriores mulher multicultural música notícias Oerol outono pop saudades saúde Sinterklaas sociedade teatro televisão Terschelling trabalho trem turismo twitter typisch Braziliaans Verhagen Tweetup verão

batateira no twitter

comentários recentes

Bailandesa em Amsterdã é como uma vila…
Bailandesa em (Verhagen_Tweetup#5) Te vejo n…
Rolf Oversier em a batateira
Magda Valente em Amsterdã é como uma vila…

Feito na Holanda

Hecho en Holanda

In het Nederlands

Made in The Netherlands

Tips about Brazil

Mais lidos

links mais clicados

Postado em:

Abril 2008
S T Q Q S S D
« Mar   Mai »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

Arquivos

Quem?

Meta