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Será que ela entendeu minha conversa?
Quarta-feira, 10 horas da manhã. Estou sentada em um café no centro de Amsterdã. Tomo um café com leite, acompanhado de um croissant. Caderninho de anotações, lápis e telefone celular sob a pequena mesa redonda. Trabalho no meu projeto de conclusão de curso. Na mesa ao lado, duas senhoras conversam animadamente em holandês.
A única entrevista que fiz até agora estava incompleta, segundo a minha orientadora. Ligo para a entrevistada para marcar o próximo encontro. Ela é brasileira e, naturalmente, falo ao telefone em português. Depois do bate-papo telefônico, volto para as anotações.
Acompanhei Thijs rumo ao bar onde aconteceria a after party. Ele estuda e mora em Groningen, província mais ao norte da Holanda, o que significa que passou umas duas horas e meia no trem. Aproveitou para ir mais cedo, conhecer a capital política holandesa. Thijs pretendia voltar logo para casa por causa da viagem de trem.
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Os presentes queriam felicitar o anfitrião. Queriam dizer o quanto o admiram ou passaram a admirá-lo por estar no twitter.
“Eu nunca votei no senhor nem no seu partido (o democrata cristão). Mas desde que o sigo percebo que o senhor é boa gente”, confessou uma das convidadas.
Um outro, de um partido estudantil, quis saber detalhes do início da carreira política de Verhagen. Em seguida, twittou a resposta dele. José gostaria de uma foto com o ministro para mostrar aos seus alunos.
Solidariedade
A guria que bateu uma foto minha veio se apresentar. Reuniões de twitteiros é o tema do livro de Ikbendaf, que será lançado no fim desse ano. A fotógrafa contou diveros causos em qe o twitter foi útil para gente ‘como eu e você’.
Foi via twitter que encontrou uma das suas melhores amigas – e que mora a uma quadra da casa dela. Uma outra twitteira recuperou seu laptop roubado via twitter e muitos dos presentes nessa festa se conhecem de anteriores churrascos e pique-niques.
“Infelizmente esse tipo de história não é publicada nos jornais”, disse ela, desapontada. Slijterijmeisje se aproximou. “Foi-se o tempo da solidariedade no twitter”.
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Em outubro do ano passado a curiosidade (e um trabalho do mestrado) fez com que eu telefonasse para a assessoria de imprensa do ministério holandês de relações exteriores para perguntar quem twittava pelo ministro Maxime Verhagen. “A maioria dos tweets é dele”, respondeu um dos porta-vozes.

Verhagen é um dos poucos políticos holandeses que usa o twitter como estratégia de comunicação para com os seus eleitores e outros interessados no que ele anda fazendo. Muitos outros entram em contato com os cidadãos através das comunidades virtuais. A maioria usa essas ferramentas durante as eleições.
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Começo a perceber que tenho uma certa fluência no holandês. Não que fale 100% correto ou que eu não tenha sotaque. E a fluência depende muito de com quem em falo e em quais circunstâncias.
Num ambiente descontraído como no festival Over Het IJ consigo formar frases completas, as pessoas me entendem e nem sequer me perguntam de que país eu sou.
Este progresso se deve ao fato de eu poder abrir mais a boca em holandês. Tudo começou nos festivais de teatro de 2008, na condição de voluntária.
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Em seis de junho as obras do metrô em Amsterdã estavam abertas para visitação. Era possível ver as escavações dos buracos espalhados pelos nove 9,7 quilômetros que, segundo a previsão, devem unir a cidade de norte a sul a partir de 2017.
Tirando o fato de que a obra está estimada em 3,1 milhões de euros e de que diversos moradores se mudaram dos arredores de uma das estações porque os prédios deles afundaram alguns centímetros, quem é que se interessa em visitar uma estação de metrô inacabada?
Entro no pet shop e cumprimento o balconista com um ‘goedemorgen’. Pego alguns pacotes de ração seca, algumas latas de ração úmida e me dirijo ao balcão:
- Mag ik een anti-vlooienmiddel?
- Bayer of Frontline?
- Frontline.
- Met drie of zes pippeten?
- Drie.
Ele pega uma embalagem do produto que está na prateleira, coloca junto com as demais mercadorias, dirige-se ao caixa e faz a soma. Ele diz quanto eu devo, eu pago e ele me faz uma pergunta em voz baixa, da qual eu só ouço a última palavra: elkaar.
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Ele já estava aguardando o farol mudar de cor antes de eu chegar no cruzamento. Boné na cabeça, mochila nas costas, olhou para mim e me cumprimentou.
‘De onde será que eu o conheço? Será que foi meu aluno de português?’, pensei. Cumprimentei-o e disse que não estava o reconhecendo.
- Nos conhecemos do tempo em que você não tinha máquina de lavar roupas, respondeu ele.
- Claro! É a primeira vez que te vejo de boné!
Não apenas o boné. Se o farol não estivesse fechado jamais o viria com trajes esportivos. Depois de um longo período, acabava de encontrar com o dono da tinturaria que a uns anos atrás frequentava semanalmente. Quando o via no estabelecimento dele, ele sempre estava engomadinho.
oi batateira, tá tudo bem por aí?
eu vi na TV que um doidão avançou em cima da família Real de carro…
como anda tudo por aí? pós, trabalho, crise, gripe suína… tudo sob controle?
um beijo
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Oi Rafa, bom saber que seus pensamentos andam por aqui!
Acho que o telefone sem fio distorceu a notícia por aí. Ninguém da família real foi atingida pelo suzuki desgovernado do ex-agente de segurança que perdeu o emprego, não tinha mais grana para pagar o aluguel e acabou com a própria vida – e de mais sete pessoas – dessa forma.
Mas a Rainha, o príncipe e a princesa não deixam se intimidar. Como todos os 4 de maio, às oito da noite, os membros mais visados da família real estiveram na praça Dam em Amsterdã para fazer os dois minutos de silêncio pelas vítimas de guerra no mundo a partir da segunda guerra mundial.
Trabalhei em Amsterdã para um call center internacional. Na cidade mais multicultural, não é difícil encontrar gente que fale idiomas do mundo todo como língua materna, seja ela qual for.
Para conseguir a vaga, não foi preciso passar por nenhum processo de seleção, muito menos comprovar experiência: bastou telefonar e dizer que falo português.

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