Início > Holanda > Mulheres + crianças = trabalho?

Mulheres + crianças = trabalho?

01 - 07 - 2007

Há alguns meses, Emely Nobis, redatora da revista feminista Opzij, lançou o livro “Geen Kinderen, geen bezwaar” (não ter filhos não é um inconveniente), no qual ela entrevistou mulheres que nunca ouviram o tiquetaquear do relógio biológico.

Para a maioria das mulheres, o conhecido relógio biológico começa dar sinal de vida quando elas chegam aos 30 anos e não são mães.

Uma pesquisa internacional divulgada no jornal NRC Handelsblad recentemente traçou o perfil da mulher que não tem filhos: ‘normalmente, possui altos níveis de educação formal, são pouco tradicionais e anseiam liberdade e independência’.

Preconceitos
No entanto, ainda que para tais mulheres essa opção seja clara, até a ‘dita’ emancipada sociedade holandesa não está totalmente preparada para aceitar o fato de que existem mulheres para as quais crianças não fazem parte dos planos delas.

As mulheres entrevistadas por Nobis já ouviram de outras pessoas que elas não tinham filhos por serem frustradas sexualmente, solitárias, egoístas ou que não eram mulheres de verdade, enfim julgamentos que não condizem com a livre escolha delas.

De fato, os valores tradicionais estão bastante arraigados na cultura tradicional mundial. Ouvi outro dia uma entrevista com Minneke Schipper, autora do livro Never marry a woman with big feet, uma coletânea dos provérbios e ditos populares sobre mulheres, recolhidos por ela mundo a fora. Na maioria deles, a figura da mãe é glorificada. As demais figuras do sexo feminino que escolhem outras vias de felicidade, são discriminadas.

Sozinha, não!
Também é verdade que muitas mulheres preferem não ter filhos por terem receio de se verem só na tarefa de cuidar deles, o que acontece com muita freqüência.

Na Itália, Espanha e Grécia, segundo o NRC Handelsblad, os índices de natalidade (cerca de 1,29 por mulher) caíram porque as mulheres não têm mais vontade de serem mães como nos velhos tempos. No entanto, menos da metade das italianas estão ativas no mercado de trabalho.

O contrário acontece na Islândia, onde se etimula que os homens ajudem em casa. Lá, 90% das mulheres entre 25 e 59 anos trabalham e o país possui um dos maiores índices de natalidade na Europa (1,99).

Carreira ou criança?
O governo holandês pensa em uma forma de atrair mais mulheres para o mercado de trabalho.

Na Holanda é possível trabalhar em tempo parcial, de um a quatro dias por semana, por exemplo. Normalmente, as mães fazem uso dessa possibilidade, trabalham um ou dois dias por semana. Porém, as empresas não costumam oferecer melhores oportunidades de carreira para quem se dedica parcialmente ao trabalho.

Talvez seja por isso que os Países Baixos, juntamente com o Paquistão, ocupam o último lugar de um estudo da Grant Thornton, uma consultoria empresarial dos Estados Unidos, sobre mulheres em cargos de liderança no mundo. E é por isso que, em uma entrevista, a feminista holandesa Heleen Mees me falou que “as mulheres holandesas não são emancipadas”.

Anúncios
  1. paula
    04 - 07 - 2007 às 3:15 pm

    Esse assunto de ter ou não filhos é realmente intrigante… Já andamos compartilhando informações; eu decididamente não mudo de opinião nos próximos 10 anos (quando terei 33). Efetivamente deve ser ótimo ter filho, cia., etc, etc…. mas, por enquanto, quero ter um gatinho ou um cachorrinho de verdade (além do par de pantufas de coelho que eu tenho que manter limpas e já dá trabalho). Não acredito mais que seja uma questão de relógio biológico, mas de relógio cultural… a necessidade de que as mulheres tenham filhos foi transmitida assim como a necessidade de acreditar em Deus… mas da mesma forma que muitos já encontraram caminhos diferentes para preencher sua subjetividade, muitas somos que escolhemos ter uma vida diferente da switty mamma!
    aliás, obrigada pelos aplausos (vou roubar um pedaço da sua postagem pra colar no meu blog rsrsrsrsrs)

  2. Tatiana
    14 - 07 - 2007 às 11:08 am

    acho que vou me mudar para a islândia!

  3. Sara
    30 - 07 - 2007 às 11:54 pm

    Oi Daniela!
    Já não vinha visitar o teu blog há um tempinho… pelo que vi, continua bem interessante e cheio de criatividade!!! Boa onda, mesmo!
    Quanto a este post, tenho impressão que os preconceitos pró-mamã encontram eco nos preconceitos anti-mamã. Ou seja, porque é que se pensa em branco e preto?
    Em “ter filhos é sinónimo de não ter carreira”, ou apenas as mães-domésticas são boas mães? Ou uma mulher com filhos não consegue ter um bom desempenho profissional?
    E que tal colocar as coisas noutros prismas:
    1º: Ter filhos dá uma trabalheira que há poucos empregos mais cansativos: mas também há poucos mais recompensadores 😉
    2º: Ter filhos, do ponto de vista puramente económico e social, é a única produção de uma sociedade cujo investimento dá garantias de sobrevivência da sociedade (aliás, os países sub-desenvolvidos só continuam a existir porque, apesar dos tristes índices de sofrimento e mortalidade, continuam a procriar de forma absolutamente impressionante)
    3º: Há várias formas de gerir uma carreira e de gerir uma família. O importante é saber bem o que se quer, para si e para aqueles que se ama. Partindo daí, as soluções são tantas quantas as cabeças pensantes.
    4º: E de qualquer forma, não há modelos infalíveis: uma mamã que esteja sempre em casa pode ser maravilhosa ou pode ser muito infeliz e levar essa infelicidade para os filhotes; uma mulher que só se dedique ao trabalho pode ser brilhante ou pode falhar, como qualquer outra pessoa.

    A mensagem, no fundo, é esta: os estereótipos são sempre insultos à inteligência e à criatividade que é tão rica e variada na humanidade. Basta pensar nas diferenças todas que se encontram nos habitantes de Amsterdão…

    Um abraço

    Sara

  4. 31 - 07 - 2007 às 2:13 pm

    Oi Sara, bom te ver por aqui novamente, sempre contribuindo atentamente ao debate! Concordo com a sua opinião, também há muita generalização e pouco respeito à liberdade de escolha da mulher. Mas o que me intriga é o porquê, por exemplo, não se questiona o fato de o pai também precisar permanecer mais tempo com as crianças… porque se cobra tanto mais da mãe quando ambos são responsáveis pelos filhos?
    abraços,

  5. Sara
    03 - 08 - 2007 às 10:54 pm

    Olá, Daniela!
    Obrigada pelos elogios, mas podemos deixar essa parte de lado? Fico babada, mas a vaidade pode entorpecer os meus neurónios 😉

    Quanto à tua dúvida, penso que é por interesse.

    Interesse das mulheres em continuarem a ser “super-galinhas”, quer por razões biológicas (o sentido de protecção que faz a mulher ficar uma fera quando alguém ameaça as suas crias), quer por razões sociais (sempre é um domínio onde a mulher tem algum poder garantido, quando há tantas onde não tem nenhum).

    Interesse dos homens, pois enquanto as mulheres estão com os filhos, eles podem ter outro tipo de descanso, sem terem de perder as responsabilidades (mas trabalhar num emprego cansa menos que ficar dias seguidos em casa com crianças pequenas) e por outro lado, tendo as mulheres o “feudo” da família, não se arriscam a ter de competir com elas por outros “feudos”.

    Parece um pouco cínico, não?, mas nestas coisas não há preto e branco. Se na Europa ainda tivessemos alguns rituais de violência sobre as mulheres socialmente e legalmente aceites, poder-se-ia falar de coerção, mas agora não existem essas pressões físicas e ainda existem esses preconceitos. Deve haver algo mais que tradição a manter isso, não?

    Qual é a tua opinião?

    Sara

  6. 06 - 08 - 2007 às 9:55 pm

    Olha Sara, essas são questões bastante delicadas na qual, sinceramente, nunca parei muito para pensar.

    Eu acho que concordo contigo, há muita tradição, aliada ao interesse de não mudar a situação da família como é atualmente.

    Acho que tem a ver com a maneira que a sociedade está composta, com o que a feminista holandesa Helen Mees chama de ‘cartel dos homens’, mas também com a posição de muitas mulheres que preferem estar acomodadas em cumprir o que a sociedade espera delas do que serem elas mesmas…

    Mas isso tudo de uma maneira generalizada, é claro que existem muitas mulheres e homens que agem de maneira diferente e não se importam com os anseios (ou o falatório) da comunidade ao seu redor.

    No entanto, se as mulheres entrevistadas por Nobis ainda se sentem, de alguma forma, discriminadas, isso é um sinal de que o conservadorismo continua forte, esperando que a mulher cumpra o papel a ela estabelecido. Como mudar isso é a minha questão para ti!

    abraços,

  7. Sara
    06 - 08 - 2007 às 11:48 pm

    Oi Daniela!

    Não sei bem o que pensar sobre como mudar comportamentos enraizados. O que sei é que quando uma situação está mais ou menos estabelecida é porque traz vantagens para a maioria. Só quando a maioria se sente desconfortável ou começa a perceber que há alternativas que aumentam as vantagens das minorias sem serem muito incómodas para essa maioria é que há transições nas tradições (ou isso ou verdadeiras revoluções!!).

    Portanto, talvez se possa aplicar esse modo de mudança neste caso. Fazer sobressaírem as vantagens que advenham para a comunidade de existirem mulheres e homens que não encaixam nos “papéis tradicionais”. Para além disso, essas vantagens também devem ser acompanhadas da demonstração que não têm efeitos secundários nocivos ao “conforto geral”. HA! HA! HA!

    Parece brincadeira?

    Não é bem a brincar… vê só:

    – se a sociedade aceitar globalmente que há mulheres que não querem ter filhos porque não se sentem vocacionadas para tal, mas por outro lado contribuem para a sociedade de outras formas enriquecedoras, podem vir a ser gradualmente aceites como “mal menor” (a forma mais subtil de se ir aceitando uma mudança é menorizá-la, mas não deixa de ser uma forma de abrir uma brecha na muralha).

    – numa segunda fase do processo, pode-se clarificar que uma boa mãe ou um bom pai só conseguem sê-lo porque querem de facto ter filhos. Mais vale um filho amado e desejado na sociedade do que um filho rejeitado, que tem maiores probabilidades de ser uma pessoa infeliz e inadaptada (mais uma vantagem social 😉 )

    – depois pode-se passar para a fase de apoiar de facto as famílias com filhos, valorizando o seu papel como elementos-chave na consistência da sociedade. Não se desvaloriza “humanamente” quem não tem filhos e não se retira “realização social” a quem os tem (que na prática é o que acontece às mulheres que não têm direito a carreira por terem filhos, não é?)

    Bem, aquilo que me parece é que as tradições são resultado de acomodações consensuais. Para serem modificadas têm de ser questionadas, mas apresentando alternativas que resolvam melhor as questões que vão sendo resolvidas de forma aceitável pela tradição.

    E o estigma da mulher-mãe encerrada entre panelas e biberons ou o estigma da mulher-robot fria e estéril não deixam de ser tão ridículos como as histórias de bruxas e monstros que se contam às crianças para elas não fazerem algumas coisas…

    Faz sentido?

    Gosto mesmo de trocar ideias contigo! Mas como não quero ser uma chata, quando quiseres mudar de assunto basta avisares! Não fico melindrada, nem tampouco quero “entupir” um blog tão interessante e divertido com um monte de pensamentos altamente pessoais!

    Um abraço!

    Sara

  8. 17 - 08 - 2007 às 1:28 pm

    Pois é, Sara, talvez apenas nós duas estejamos aqui lendo nossos debates públicos e as demais pessoas que amavelmente visitam o Submarina não estejam interessadas nas nossas opiniões pessoais…

    talvez esse assunto mereça realmente atenção de outra forma que não aqui, mas enfim… aqui vou eu novamente!

    Concordo contigo, a mudança pode vir de um processo lento ou uma revolução.

    Acredito que a maioria de nós não saiba que o padrão de família hoje estabelecido é muito recente na sociedade, que houveram períodos em que as famílias viviam mais ‘soltas’ e as crianças não viviam apenas com os pais biológicos. Talvez uma solução seja fazer publicidade das outras maneiras de vida e acabar com este discurso maniqueísta.

    Como você bem colocou, existem mães felizes e infelizes, embora isso não esteja diretamente relacionado com ter ou não ter trabalho. Devem existir mulheres realizadas em todos os estilos de vida (aceitáveis e inaceitáveis) na sociedade.

    O que me surpreende é que ainda exista a discriminação de algumas por parte de outras (ou outros) apenas por pensarem diferente em uma sociedade aberta, democrática e plural.

    E essas são minhas palavras finais…

    E as suas? 😛

    abraços,

  1. No trackbacks yet.
Os comentários estão desativados.
%d blogueiros gostam disto: