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Surpresinhas de uma sexta-feira 13

14 - 07 - 2007

Querido diário,

Nesta sexta-feira 13, levantei na hora que o despertador tocou e saí de casa com o que os holandeses chamam de “ochtendhumeur”, ou seja, meu humor matutino não era lá dos melhores. E ainda nem imaginava o que a noite me prometia.

Montei na bici, coloquei música e me animei um pouquinho. Pedalei por dentro do parque, onde as pessoas que pedalam no sentido contrário estão mais abertas e, de vez em quando, até esboçam um leve sorriso de bom dia.

Anjinhas no meu caminho?
Desci o pequeno túnel sentido Estação Central e, como sempre, reduzi a marcha para facilitar na hora de subir a ponte que atravessaria a seguir.

Dessa vez, no entanto, tive uma mãozinha, ou literalmente, quatro mãos. Duas gurias, que vestiam calça e camiseta branca e usavam máscaras, da mesma cor, sobre os olhos, se aproximaram e disseram: “vamos ajudá-la?”

As meninas correram, impulsionaram minha bicicleta e o último trecho do trajeto ficou mais fácil! Agradeci-as, botei um sorriso no rosto, estacionei a bici, me dirigi a estação e peguei meu trem.

(…)

Sexta-feira 13?
Para esta noite, havíamos sido convidados por ‘R’ e ‘A’ para algo que eu não tinha a menor idéia do que seria. Confiei no bom gosto deles e do namorado e aceitei. Pedalamos menos de cinco minutos e chegamos. Enquanto fechávamos nossas bicis, vimos que ‘R’ e ‘A’ também se aproximavam do local.

Lugar de cultura
Tanto tempo sem nos vermos, colocamos o papo em dia no meio da rua. Sugeri que entrássemos. Até então, continuava sem saber onde e o que iriamos fazer naquela noite.

‘R’ virou-se e, com um gesto discreto, apontou para o lugar onde passaríamos a noite. Do lado de fora, uma faixa indicava: “Dit is een cultuurplek“. Já havia visto vários com a mesma indicação pela cidade. Estava mesmo curiosa para entrar num desses. De repente, podia até render uma história pro Submarina.

O que por fora parecia mais um predinho de Amsterdã, por dentro me deu um medinho! Abrimos a porta e parecíamos ter entrado num filme de David Lynch. Um cenário assim, mas tão próximo e sem a proteção de uma tela de cinema me pareceu macabro! Mas a decoração inteira era bastante conseqüente.

Instalação de gatos
Atrás de uma porta-grade estava uma sala cheia de gatos magros e apáticos que não se importavam com a presença das pessoas. No final da sala dos gatos, uma porta dava para o jardim. De vez em quando, um gato ia para fora. O piso era coberto por tapetes, a maioria dos gatos estava deitado num sofá, no meio da sala. Música árabe de fundo.

Fiquei ali, admirando-os, tentando chamar a atenção deles, fazê-los reagir. Um homem, aparentando uns 40 anos, surgiu na porta do jardim e caminhou em minha direção. Sorri para ele e não tinha a menor intenção de me mover, pensando que ele também fizesse parte da instalação ou que a grade não se abrisse. Ele fez um sinal, como se indicasse que eu estava no meio do caminho. Cedi a passagem.

‘R’ me entregou um lencinho de papel com o número dois pintado em vermelho ao centro: “o seu ingresso”, disse. ‘R’ & ‘A’ haviam passado por lá no começo da semana e se encantaram com o lugar. Explicaram que os canos que estavam no canto esquerdo da sala eram para os gatos poderem se locomover e os levavam para brincar na vitrine. “Genial!”

O porão
Fui informada que o ingresso dava direito a um curta-animado e a uma performance. Nos dirigimos ao porão onde seria exibido o filminho. O subsolo era composto de três cômodos. O primeiro era o mais amplo. Cadeirinhas dobráveis ainda estavam encostadas na parede. Éramos os primeiros a chegar.

O cômodo da esquerda era uma espécie de bar. A minha memória visual não é das melhores. Lembro-me apenas de que o piso era coberto por um tapete que, aparentemente, antes de ir para lá, decorava o The Movies. Aliás, tudo o que estava na casa parecia ser de segunda-mão, reciclado.

Me lembro de ter olhado para a parede e a cabeça de animal ali pregada não me deu vontade nenhuma de sentar no sofá abaixo dela. No entanto, aliviei-me ao sentar. Afinal, não precisava mais olhar pra ela. ‘A’ sentou-se ao meu lado, falamos de amenidades e fui me tranqüilizando.

O público
As pessoas começaram a chegar. Uma mulher de cabelo chanel, botas bege – estilo ortopédicas – e meias esportivas, uma de cada cor, me chamou a atenção. Ela realmente tinha estilo próprio. A saia, que cobria as pernas até os joelhos, deixava à mostra suas canelas peludas, talvez nunca depiladas. Percebi que a maioria do público não era holandês. Acho que ouvi alemão, finlandês, sueco, sei lá. O idioma entre os convidados que não se conheciam era o inglês.

A Separação
Todas as cadeirinhas desdobradas e ocupadas. O curta começou. The Separation, conta a história de irmãos siameses que, após uma cirurgia para separá-los, sentiam-se sozinhos. O final sangrento, triste, chocante e meigo combinava com o local em que estávamos.

Camusi
Fomos convidados a nos dirigir ao quarto da direita onde, dentro de instantes, começaria o “show”. Nele, havia uma instalação, com pernas dentro de uma calça jeans, enterradas no chão, como se alguém estivesse com a cabeça dentro de um buraco. O piso era totalmente coberto por diversos tapetes persas. Dentro de uma vitrine, imagens macabras, que lembravam rituais de religiões animistas.

Continuava receptiva. Olhei para o cara da bateria, a mina do microfone e a maioria do público em pé. O quarentão da instalação dos gatos agachou-se. ‘R’ e eu o imitamos para dar espaço para outras pessoas. A performance começou.

O limite
‘A’ foi a primeira a abandonar a sala. ‘R’ piscou para mim, com a intenção de pedir passagem. Fingi que não entendi. Segundos depois, ele se retirou. O namorado sentou-se do meu lado. Impaciente, olhou para mim e perguntou se eu realmente tinha a intenção de continuar lá.

Às vezes, a minha curiosidade é maior do que o meu bom senso. Queria compreender ao menos um pouquinho do que estava vendo ou mesmo saber qual seria a forma de agradecer performances que, para mim, eram totalmente fora do convencional.

Me lembrei de quando não curtia música eletrônica. Achava tudo um barulho sem sentido e meus ouvidos não conseguiam admitir o som. Hoje em dia ouço Boards of Canada, Amon Tobin, Moloko, Biosphere e outros sem nennum problema. Eu até gosto! Talvez um dia eu também consiga ouvir aquela dupla de italianos que agüentei por apenas três músicas – ou barulhos indefinidos interrompidos duas vezes.

Por hora, Madame Pi me deixou com a impressão de que ela não via ninguém na sala e seguia com seus gritinhos e distorções improvisadas, tiques e gestos nervosos, como se não soubesse qual botão deveria girar. E Stefano Giusti, o parceiro dela de Camusi parecia uma criança feliz, que havia acabado de ganhar uma bateria, mas ainda não sabia direito o que fazer com o instrumento.

Ah, meu querido diário virtual, sei que ficou curioso para saber mais sobre o lugar em que estivemos. Então aqui tem algumas fotos.

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  1. 15 - 07 - 2007 às 7:33 pm

    Ih, fiquei curiosíssima menina! Adoro descobrir novas coisas e lugares. Dei uma olhada nas fotos e me pareceu bem adequado para uma sexta-feira 13.
    beijo

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