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A obesidade, a fome e a imigração

16 - 10 - 2007

A VPRO (emisora de TV holandesa) exibiu, em maio, o documentário Vette Honger, que trata da interdependência entre a obesidade e a fome e que, num mundo globalizado, inclui a imigração.

Vette HongerPartiu-se da estimativa de que em 2007 mais gente vai morrer pelo excesso (um bilhão) do que pela falta de comida (820 milhões de pessoas).

A população engordou e 41% dos moradores dos Países Baixos estão acima do peso. Este número é tão alarmante quanto o de que 35% dos produtos alimentícios são jogados fora.

Há 30 anos se produz mais do que se consome no mundo todo. Por dia, são produzidas 2770 calorias para cada pessoa que habita no globo terrestre. No entanto, a fome ainda não foi extinta do nosso planeta.

As causas
Algumas das causas do problema, segundo o documentário: a comida nos países desenvolvidos é muito barata e está sempre a mão.

Em nome da liberdade de escolha, as prateleiras dos supermercados oferecem toda sorte de produtos. Nunca se houve tanta possibilidade de encontrar as mais variadas guloseimas nas ruas.

O documentário mostra também que o problema só tende a aumentar, já que os chineses estão aprendendo a tecnologia ocidental para produzir em massa. E que os países que começam a se desenvolver passam a ter hábitos alimentares semelhantes aos dos países industrializados, comendo cada vez mais a comida barata e cheia de açúcar e gorduras.

Consumir, consumir, consumir

A comida é muito barata porque se produz em grandes quantidades. A produção em massa de alimentos, no entanto, não é bem distribuída. Graças ao padrão de consumo dos países ricos, o meio-ambiente e os produtores das matérias-primas nos países em desenvolvimento são atingidos.

Nesse círculo vicioso da gordura, desmata-se mais a floresta amazônica para a plantação de soja, que, depois de colhida, servirá como alimento para as vaquinhas, galinhas e porcos que vão parar na mesa dos europeus, por exemplo.

Da fome à imigração ilegal

O círculo da fome complementa o da gordura: o agricultor que vive da plantação de subsistência é atraído a começar a produzir, por exemplo, café, com vistas ao lucro e à exportação. Se endivida para adquirir tecnologia e sementes da monocultura.

No final da produção, a saca de café vale tão pouco que para pagar as dívidas precisa vender a terra. Vende a terra e vira empregado do dono da terra onde um dia pode plantar para comer.

Acontece que há trabalho apenas duas vezes por ano. Para não passar fome, imigra para a cidade. Na cidade também não há trabalho, já que os países ricos importam a matéria-prima e eles próprios a industrializam. E os grãos de café plantados na África vão gerar emprego, por exemplo, nas empresas de café na Holanda.

Mercado livre
Dizendo de maneira bem simples, os governos dos países desenvolvidos protegem seus mercados e fornecem subsídios para que os fazendeiros europeus continuem produzindo, e cobram taxas altas para os países pobres que desejam exportar seus produtos industrializados.

Nos países em desenvolvimento não há subsídio para o agricultor. Desta forma, o africano acaba imigrando sem documentos para trabalhar como colhedor de tomates na Europa e mandar dinheiro para o resto da família, que depende da força de trabalho dele.

Links interessantes:
Clique aqui para assistir o documentário Vette Honger (holandês)
Meça aqui a sua ‘pegada ecológica’ (português, inglês etc)
Mais informações: http://www.fairfood.org (inglês e holandês)

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  1. 20 - 10 - 2007 às 11:06 pm

    Dani, embora concorde (e saiba) que este ciclo acontece e se repete por aí, não acho que é tão cruel e, como dizer, nem é tão culpa dos países ricos. Na realidade existem alternativas, se você for analisar países como a Índia, por exemplo, que investem em serviços e são o grande “parque tecnológico” dos países ricos. Claro, isso não faz com que a agricultura lá progrida e que o êxodo rural acabe, mas é uma solução para os países mais pobres diversificarem e buscarem alternativas.

    Aqui no Brasil a exportação de produtos industrializados está aumentando, você sabia disso? 🙂

    Ah! E a Scientific American deste mês veio com uma edição especial sobre obesidade também! Mas eles dizem que são 800 milhões abaixo do peso e 1,3 bilhões com sobrepeso, não que esses são os números de mortos.

    Pra finalizar, acredita que estou lendo quadrinhos Holandeses? A revista Quark, ganhadora de vários prêmios aí na Holanda e na europa 🙂 Bem interessante, mas ainda estou no número 1 (dos 3 que, até onde sei, foram lançados por aqui).

    É isso. Bjos!

  2. Tatiana
    22 - 10 - 2007 às 8:14 am

    É Dani, eu acho que esse ciclo é bastante conhecido e não acontece só aí na Holanda, mas no mundo todo, em maior ou menor escala. É a tal da globalização. Mas o que me chamou a atenção na forma como você descreveu é que tudo isso passou num documentário na TV holandesa… e me pôs a pensar nos ‘globo reporter’ que nós temos no Brasil. Não consigo imaginar um programa desses na tv brasileira. Se fossem falar de ‘gordos’ iam ficar só nas dietas, com casos de gordinhos em clínicas e spas. E se fossem falar de fome, iam mostrá-la como um caso isolado, jamais iriam fazer a relação inteira do que você chamou de ciclo da gordura.
    A tv holandesa me dá esperanças!
    beijo,

  3. 24 - 10 - 2007 às 11:53 am

    Ei Fer, fazia tempo que você não dava as caras por aqui! Bom que deixou seu comentário e com informações complementares, da Scientific American e também da revista Quark – vou atrás das duas, fiquei curiosa!

    Tatiana, concordo que o ciclo aconteça no mundo todo. Falei sobre a Holanda porque, na verdade, descrevi um documentário que foi produzido por e para holandeses, o que acredito ser o motivo para que destacassem o que acontece no país.

    E, Fer, o meu post é na verdade uma descrição do que o documentário apresentou. Tudo o que escrevi ali tem como base o Vette honger. Quase três horas com entrevistas com pessoas relacionadas à problemática, gente da FAO mas também da Unilever, por exemplo. E o programa também não culpa os países ricos, eles apenas mostram os dados e deixa que o telespectador tire suas conclusões.

    Sobre as alternativas por ti exemplificadas, tenho lá minhas dúvidas. A Índia virar ‘parque tecnológico’ dos países ricos pode até ser uma alternativa, mas não a torna auto-suficiente. Na hora que os paquistaneses possuem o mesmo know-how e são mais baratos, os clientes dos indianos vão deixar os indianos na mão.

    O que você acha? E já que falou em culpa, quem na sua opinião seria o culpado no ciclo da gordura?

    beijo,

  4. 23 - 03 - 2008 às 8:15 pm

    dani, depois que minha pegada ecológica acusou que precisaria de 1,6 planetas para dar conta de consumidores como eu… (e olha que eu seguro a onda um bocado!!! reciclo, reutilizo, economizo energia… vivo com isso na cabeça e nas atitudes…)
    acho que todos (classe média, ou pretendentes a, ou classes mais altas etc) temos um mea culpa na parada, com quilinhos a mais ou não.

  5. satunim
    02 - 10 - 2008 às 11:37 pm

    Oi Daniela!

    Tive uma vontade de ver o teu blog e encontrei este post. Muito interessante o tema! E revoltante também…

    A estas horas não consigo ser mais elaborada nos meus comentários, mas este post fez-me lembrar de uns artigos que uma amiga minha de vez em quando posta no seu blog e envia por mail para os amigos. Ela não é jornalista, mas tem um estilo de escrita que é capaz de te agarrar… Se quiseres, eu depois envio-te o link do blog dela.

    Amanhã? Em mail recheado com perguntas sobre outras “demandas”?

    Beijos

    Sara

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