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Durei pouco num call center

19 - 03 - 2008

Trabalhei em Amsterdã para um call center internacional. Na cidade mais multicultural, não é difícil encontrar gente que fale idiomas do mundo todo como língua materna, seja ela qual for.

Para conseguir a vaga, não foi preciso passar por nenhum processo de seleção, muito menos comprovar experiência: bastou telefonar e dizer que falo português.

Plural
Ao chegar no local, na data e horário combinado, notei a presença de todo tipo de gente. Alguns colegas deixavam à mostra seus piercings, tatuagens, cabelos tingidos das cores mais inusitadas. Outros com barbas ou cabelos compridos, no caso de homens, mulheres quase carecas, jovens de 20 a 60 anos, enfim, todos eram bem vindos, desde que se sujeitassem às normas da casa.

Pensei que antes de começar seria entrevistada. Meu primeiro contato com alguém da empresa, no entanto, foi um treinamento. Se é que se pode considerar treinamento uma conversa que durou menos de uma hora. Durante as instruções, alguém copiou meus documentos e assinei um formulário para a contratação.

Alerta, Alerta!
A maior parte do treinamento foi destinados à regras e normas da empresa, como a explicação da pausa de 15 minutos durante a jornada de cinco horas:

“Quando for descansar, aperte a tecla pausa no seu computador. Ela está programada para quinze minutos. Ao completar 13 minutos, sua tela fica amarela. Se você não retornar em 15 minutos, a tela fica vermelha. Ou seja, é melhor voltar ao seu posto antes disso acontecer”.

Nada foi dito sobre o salário – o coordenador disse que não sabia exatamente o valor da hora trabalhada, precisava checar na seção de pessoal. Num piscar de olhos já estava sentada na minha posição, ligando para o Brasil!

A empresa presta serviço para diversas multinacionais e transnacionais com sede na Holanda. No caso de nós, os brasileiros, ligávamos a pedido de uma empresa de eletro-eletrônicos que atua no Brasil com diversas marcas.

Dedo-duro
A minha tarefa era entrevistar pessoas que foram atendidas pelo disque 0800 dessa empresa no Brasil para saber se os funcionários do SAC deixavam ou não os clientes satisfeitos.

Em cada pergunta era obrigada a repetir as opções de resposta que o cliente tinha. Algo como:
“na sua opinião, o serviço de atendimento ao consumidor te deixou:
– totalmente satisfeito
– muito satisfeito
– satisfateito
– pouco satisfeito
– insatisfeito
– não sabe”

Normalmente, as pessoas ligavam para o SAC no Brasil para reclamar. Muitas vezes, quando estavam falando comigo, ao invés de avaliar o atendente, criticavam o produto.

Nem sempre conseguia convencer alguém de responder todas as perguntas. Não me lembro ao certo, mas acredito que haviam pelo menos 30 perguntas desse tipo.Havia dias em que em uma hora tentando ligar, apenas uma pessoa decidia colaborar.

Nesses momentos, para ajudar a passar o tempo, colecionava nomes e sobrenomes de entrevistados, tentava desenvolver minhas habilidades artísticas e fazia constatações inúteis, como, por exemplo: “muita gente liga para o SAC da casa de um parente ou amigo.” Enfim, o que posso fazer com esse tipo de informações?

Missão impossível
Mas a minha experiência num call center durou muito pouco. A tarefa não me inspirava e as condições empregatícias não eram lá as melhores.

Semanalmente, precisava ligar para o departamento pessoal e confirmar para quando estaria escalada na semana seguinte. Um mês e meio depois, embora estivesse na programação, não podia comparecer por causa de uma viagem em caráter emergencial. Pedi para trocar o plantão.

– Isso não é possível, disse o homem do Recursos Humanos. Ou você vem trabalhar nesse dia ou não precisa vir mais!

Fiquei feliz com a segunda opção.

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  1. 19 - 03 - 2008 às 6:41 pm

    Call Center é tudo igual, em tudo que é pais. Incrível! (logicamente, tudo péssimo!)

    Não entendo como esse tipo de recurso é ainda usado, é tudo um pé no saco. Eu trabalhei por poucas semanas em um, odiei!

    fico feliz por não estar mais nessa vida medíocre. huahuauhah

  2. Valerie
    22 - 03 - 2008 às 2:03 am

    Queria te desejar uma Feliz Páscoa!!
    Beijos

  3. 23 - 03 - 2008 às 7:35 pm

    não fazia idéia!!!
    sobrou algum/a colega interessante na tua agenda telefônica?? além da experiência irrepetível, é o que poderia ficar de melhor…
    beijinho!

  4. 18 - 04 - 2008 às 5:14 am

    Demorei pra ler, mas o relato valeu a leitura. Que ridículo, Dani! Caramba. Decepcionante saber desse tipo de ambiente de trabalho, com esses “objetivos”…

    :***

  5. giuliana
    26 - 01 - 2009 às 5:21 pm

    Quanto tempo tenho de pausa pessoal trabalhando 6:00hrs e 20min em um call center. Já que eu estou gravida e tenho mais nessecidade de ir ao banheiro.

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