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I’m sitting in the rain…

08 - 08 - 2008

Parodiando Arthur Freed, talvez essa seria a música que o público do teatro ao ar livre estivesse cantando na noite que estreiei como voluntária no Amsterdamse Bos. Após o jantar coletivo, com artistas e voluntários, a coordenadora, Maria, caminhou conosco até o local onde deveriamos trabalhar.

Faltavam três horas para o espetáculo começar mas já havia público sentado na arquibancada. Caía uma chuva fina e algumas pessoas faziam um piquenique, não sem abrir os guarda-chuvas.

Minha missão consistia em oferecer as mantas, assentos fofinhos e spray anti-insetos para o público, além de vender o programa da peça. O posto de trabalho não era coberto, mas as árvores gigantescas nos protegiam da chuva. O buienradar indicava que dentro de quinze minutos as gotinhas iriam cessar.

O público chegava animado e bem informado. A maioria havia visto a previsão do tempo antes de sair de casa, sabiam que em poucos minutos o céu limparia e poderiam dispensar a proteção contra a chuva.

Passada meia hora, no entanto, a chuva não parou. Mais vinte minutos e ela insistia em cair. Os espectadores continuavam chegando, trazendo com eles cestas de piquenique e guarda-chuvas.

Dentre os presentes, vi Alda, que usava capa e calça de chuva amarelas, com detalhes em vermelho. Ela se espantou com minha capacidade de reconhecê-la em trajes tão disfarçante.

De tempos em tempos, Maria aparecia com informações sobre o clima, a chuva e a disposição de aguardar o tempo abrir.

Faltando quinze minutos para o espetáculo começar, não tinha mais esperança de que os artistas iriam subir ao palco. Após mais de duas horas de chuva, os galhos das árvores já não mais funcionavam como abrigo. Mas o público continuava chegando.

“É impressionante ver todos estes die hards na arquibancada, guarda-chuvas abertos”, disse Maria. “Em homenagem ao público, que aguardou tanto tempo na chuva, os artistas também vão se apresentar na chuva”.

Abaixo uma amostra de Os Veranistas (Zomergasten), de Máximo Gorki:

É um teatro musical, artistas andam com microfones pregados no rosto o tempo todo, instrumentos de corda e piano estão em cena, a peça dura duas horas e a maioria dos atores passa o tempo todo no palco, ainda que não estejam em primeiro plano.

“A chuva é fria, será que eles agüentam?”.

“Artistas podem ficar resfriados se é que não vão morrer eletrocutados antes”.

Era esse o tipo de divagação que minha colega de posto e eu fazíamos enquanto atendiamos o público, que não parava de chegar.

Passados dez minutos do horário oficial do início da peça, ouço a voz da personagem Sacha, que com seu sotaque forçadamente russo, diz que os atores entrariam no palco em breve. Uma longa salva de palmas e, em seguida, o espetáculo se inicia.

Nos bastidores, os voluntários mais experientes comentam que essa é realmente uma exceção. De Artemis, que trabalhou no caixa, ouço que 250 pessoas estão presentes – o que é pouco para a capacidade do teatro, mas muito por ser um dia chuvoso.

Em seguida, os pinguinhos tornam-se pingões e a peça é interrompida. Artemis volta ao seu posto. Ele está autorizado a dar entradas gratuitas para outro dia para as pessoas que quiserem ir embora. Algumas pessoas se dirigem a ele apenas para perguntar onde é o banheiro.

A chuva diminui. A peça continua. Quase meia-noite. A peça termina. O público aplaude e, aparentemente satisfeito, vai para casa. Finalmente a chuva parou.

Dias depois recebo um email de Alda:

“Foi bom te ver lá no Amsterdamse Bos. Não gostei muito da peça, mas foi excelente ver que todo mundo ficou sentadinho, na chuva. Que atmosfera mais especial!”

ps: a partir de agora, os personagens do submarina recebem nomes fictícios.

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  1. 15 - 06 - 2009 às 2:22 pm
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