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Um idioma artificial

05 - 03 - 2011

No vestiário, após a aula de dança:
– Te vi no trem essa semana.
– Ah, então era você! Eu vi uma menina que realmente se parecia muito com você, mas fiquei na dúvida; por isso não te cumprimentei. – respondi.
– Sim, eu também fiquei na dúvida!
– Você sempre faz esse trajeto?, perguntei.
– Não, eu tinha ido visitar uma amiga em Amersfoort.
– Ah, porque eu faço esse trajeto todos os dias. Assim, se você me ver no trem, sou eu!, disse.
Silêncio…
De repente outra mulher, que também estava no vestiário entrou na conversa:
– “Se você me ver no trem, sou eu!” – Essa frase soa um pouco rara…
As outras mulheres que também estavam no recinto começaram a rir. Uma outra olhou pra mim e disse, com um sorriso meigo no rosto:
– É claro que se ela te ver no trem é você!
E, eu, rindo e sem entender o problema, repeti:
– Claro, se ela me ver no trem, sou eu! Ou não?
Ninguém me contradisse.
Me despedi das meninas, mas fiquei com aquela conversa na cabeça.

No caminho de volta para casa, pedalando, traduzi o que havia dito em holandês para o português. Tecnicamente o que disse até poderia estar correto (se ela me visse, é claro que ela estaria me vendo), mas na minha língua materna eu jamais usaria essa frase. Talvez dissesse algo como “Se você ver alguém que se pareça comigo, é bem provável que seja eu”.

Acredito que esse tipo de falha aconteça porque o holandês continua sendo um idioma artificial para mim; simplesmente reproduzo palavras que estão armazenadas em algum arquivo do meu cérebro. E talvez seja por isso que algumas vezes uso um “ele” para me referir a uma mulher ou sento “em cima do trem” (op de trein), quando, na verdade, deveria sentar “no trem” (in de trein).

Ou você tem uma outra explicação? Se, sim, por favor, comente aqui! Estou curiosa!

  1. 06 - 03 - 2011 às 4:07 am

    “Essa frase soa um pouco rara…”<- Essa frase me soa um pouco estranha🙂 No original ela usou "rare" (estranho)? Ou ela usou algo como "ongewoon"? Fiquei curioso.

    De qualquer forma: o comando de uma língua aprendido depois de adulto nunca será o mesmo que temos sobre uma língua mãe, segundo o que estudei de aquisição de linguagem na faculdade. Normal.

    Mas mesmo na nossa língua mãe nós usamos frases estranhas às vezes, e lapsos ocorram: "Eu subi lá em cima", por exemplo não é algo, digamos, raro de ouvir.🙂

    Existe uma certa categoria de erros que realmente um nativo jamais cometeria (por exemplo, em pt muito dificilmente um nativo usará a marca de gênero incorretamente em "o menino", embora seja comum nativos usarem sem a marca de número, "os menino"), mas existem outras que podem acontecer independente de ser a sua língua mãe ou não.

    É, ao contrário de artificial, natural.

    • 06 - 03 - 2011 às 4:56 pm

      Hahaha, Daniel, na verdade ela usou: ‘dat klopt niet’!
      E com certeza, também cometo muitos erros gramaticais em português…

  2. 09 - 03 - 2011 às 12:38 am

    Acontece muito comigo. São aqueles pequenos e irritantes errinhos. Mas também cometo meus errões. Ai sim, o holandês continua artifical, incomum e raro para mim.🙂

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