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Abdolah me cativou

28 - 03 - 2011

Sexta-feira de manhã. Coloco minha jaqueta, pego minha bolsa e digo ao meu colega que vou até o centro da cidade comprar um livro e já volto. No sábado é aniversário da sogra. Ela pediu L’Enquête, o novo livro do francês Philippe Claudel, recém traduzido para o holandês.

Chego na livraria, peço o livro para a vendedora para não peder tempo procurando – e voltar o mais rápido possível para a redação. No caixa, ela me pergunta se quero o livro-presente da Semana do Livro. Aceito, embora raramente leia ficção.

“De Kraai” (a gralha) me chama a atenção por ter sido escrito por Hossein Sadjadi Ghaemmaghami Farahani, um iraniano que vive na Holanda desde 1988 e assina como Kader Abdolah. Os livros escritos por ele ganham destaque na mídia holandesa, mas sempre me parecem grossos demais para despertar meu interesse. Mas já que esse livro caiu em minhas mãos e é fininho, porque não lê-lo?

“Ik ben makelaar in koffie, en woon op de Lauriergracht, no 37”. A primeira frase do livro me chamou a atenção. “Ei, isso me lembra Max Havelaar, o clássico da literatura holandesa escrito no século XIX por Douwes Dekker sob o pseudônimo de Multatuli“, pensei. Também tentei ler esse livro, em português, mas o achei muito difícil por suas idas e vindas entre a Indonésia e a Holanda e a morosidade em chegar ao clímax.


De Kraai
No entanto, as histórias persas contidas em “De Kraai” me cativaram pela maneira simples como foram contadas. Das mulheres que apareceram na vida do personagem – muitas delas inatingíveis -, de um tio que sempre lhe acudia com bons conselhos na hora certa e de uma gralha que o acompanha a vida toda, em sua cidade natal, em Istambul ou em Amsterdã. E embora eu não entenda nada de poesia, admirei o fato de ele citar diversos versos holandeses como se pertencessem a ele.

Na tarde de domingo, sentei-me ao sol e deixei-me levar pelas palavras de Kader Abdolah. De Kraai narra em primeira pessoa a vida de um homem iraniano que desde criança sempre quis ser escritor, imigrou para a Holanda como refugiado político, vende café e sonha ter um livro seu publicado em holandês.

E para quem está em crise com a leitura, (sim, estou em crise – e não apenas com a leitura) achei um grande feito o fato de ter lido 92 páginas em menos de duas horas!

Kader Abdolah me cativou. Como um dia Saramago, Machado e, recentemente Hatoum o fizeram. Quero agora saber mais sobre esse escritor e, quem sabe, me desafiar a ler um dos seus livros mais grossos ou traduzir para o português um dos seus mais finos – sem pretensões de publicação, apenas para exercitar, uma das dicas contidas em “De Kraai”.

O fato é que ele também é inspirador para aqueles que, como eu, imigraram para a Holanda e possuem a ambição de, um dia, poder ganhar o pão contando histórias – verdadeiras ou fictícias – em holandês. É que aos 39 anos – e apenas cinco desses vividos na Holanda – Kader Abdolah lançou seu primeiro romance em holandês.

Leia também:
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Literatura em alta

E em holandês, entrevista com Kader Abdolah.

(ps: desculpa por compartilhar algo assim tão pessoal…)

  1. paolafranco
    22 - 04 - 2011 às 10:31 pm

    Ahhhh, adorei você compartilhar algo tão pessoal. O seu relato fez o De Kraai ficar mais legal aos meus olhos. Não cheguei a terminar de ler – deu preguicinha – mas o que também achei interessante foi a parte de ele contar como treina o aprendizado do idioma. De fato, inspirador!

  1. 05 - 09 - 2011 às 9:35 pm
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