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A excursão do inburgeringscursus II

06 - 09 - 2011

Parte II do capítulo 18 do livro Vinexvrouwen, de Naima El Bezaz.


A professora estava em pé ao lado do motorista com o microfone em frente aos seus lábios enquanto olhava radiante para a classe.

“Senhoras e senhores, hoje nós temos aqui uma escritora. Uma escritora é alguém que escreve. Então, não simplesmente em folhas soltas, mas livros de verdade. Livros que você pode comprar na loja ou, no caso de vocês, emprestar na biblioteca.”

As pessoas no ônibus ouviam com atenção. Na frente, sentava-se um homem alto e magro e que fazia anotações. Não tinha ninguém sentado ao lado dele.

“Muito bem, Omar”, disse a professora. “Mais um pouco e eles poderão também pedir um livro escrito por você emprestado”.

“Isso só pode ser praga de Deus”, murmurei.

“Você disse alguma coisa?” perguntou a mulher.

“Eh, não, não”.

“Muito bem. Primeiro eu vou rever o básico com eles. Naima, sente-se ali, ao lado de Omar. Ele é o homem bem preto que escreve o tempo todo. Depois eu passo a palavra pra você”.

Eu caminhei na direção do somali e desabei ao lado dele.

Uma boca cheia de dentes perfeitos e branquíssimos sorriu para mim.

“Naima, você também precisa prestar a atenção. Eu sei que você foi criada aqui, mas não totalmente. Então… a Holanda é o país da liberdade. Nós lutamos pela liberdade de expressão na guerra. Aqui tudo é tolerado, mesmo se é proibido. Somos o país da liberdade de crenças, da tolerância religiosa. Nós damos muito dinheiro aos pobres na África.”

“E ainda mais à União Europeia”, disse Omar, com um sotaque.

“Omar, você disse algo?”

Ele nega, balançando a cabeça fortemente.

“Eu acho que você falou. Pode partilhar conosco, porque nesse país você é livre, pode dizer o que quiser, pode perguntar o que quiser e sempre vai continuar sendo respeitado. Vivemos em um país feliz. Os estadunidenses pensam que os Estados Unidos é o país da liberdade, mas eles falsificaram a história deles”.

Ela me olhou e acenou.

“Agora é sua vez.”

O ônibus partiu. O motorista olhava atravessado. Eu o compreendia totalmente.

“Eh… eu sou Naima e eu tinha quatro anos quando eu cheguei na Holanda”.

“Refugiada?” perguntou Omar.

Eu fiz que não com a cabeça.

“Eles trucidaram a sua família como os hutus e os tutsis?” perguntou um outro.

Fiquei boquiaberta.

“A sua mãe se separou e casou com um holandês e por isso teve que fugir da família dela? Ela tinha medo de vingança familiar?”

“Não, Fadima”, disse a mulher ao lado dela. Turcos não são iguais aos marroquinos. Turcos matam pessoas. Marroquinos só batem uns nos outros.

“Então”, continuei.

“Mas qual é a diferença entre marroquinos e turcos?” perguntou uma bonita caboverdiana.

Omar se vriou para ela e disse: “Marroquinos são turcos com cabelos cacheados”.

“É isso?” ela perguntou.

“Eh… nós temos cachos”, respondi. “Mas os países são bem distantes e falamos idiomas diferentes. Eu acho que isso vocês sabem”.

Onde é que eu fui parar? Desesperada eu olhei para a professora. “Diga, senhora, para onde é que nós estamos indo mesmo? Talvez para Keukenhof, Madurodam ou Zaanse Schans?

A professora ficou de pé e tomou o microfone da minha mão. “Sim, meus queridos. Eu mantive o segredo por muito tempo. Porque eu e o time pensamos muito bem sobre o melhor destino para vocês e o lugar que vamos visitar chama-se Marken.

“Marken?” perguntei. “Eu havia pensado em Staphorst“.

“Hahahaha, essa é boa, Staphorst. Não, vamos pra Marken. Talvez iremos para Urk ou Volendam da próxima vez. Há tantas cidadezinhas tipicamente holandesas. Nesses vilarejos não se pode destruir nada nem construir prédios modernos. Temos que honrar e respeitar nossa história”.

Ela estava um pouco ofegante. Eu dei um passinho para o lado.

“Vai sentar”, disse o motorista. “Agora a estrada fica um pouco perigosa”.

Eu não deixei ele repetir.

“Legal, né?” disse Omar, fechando seu caderninho com capa de couro preto.

“O que você escreve tanto?”

“Tudo,” disse ele. “É tão especial poder morar num país onde você pode dizer tudo o que você quer. Sem vergonha, como na Somália. Liberdade. Eu me sinto abençoado. Allah é grande! Você conhecer Marken?”

“Não que eu saiba”.

“Você aqui já há 30 anos e conhece Marken não?” gritou uma caboverdiana que sentava atrás da gente. “Eu acho você precisa também fazer curso de integração”.

“Bem, hoje eu estou fazendo com vocês” disse isso docemente e pensei profundamente no que eu iria contar a eles daqui a pouco. O que eu sabia sobre Marken?

continua.

Leia também:
A excursão do inburgerinscursus I

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  1. 07 - 09 - 2011 às 8:59 pm
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