Um idioma artificial

No vestiário, após a aula de dança:
– Te vi no trem essa semana.
– Ah, então era você! Eu vi uma menina que realmente se parecia muito com você, mas fiquei na dúvida; por isso não te cumprimentei. – respondi.
– Sim, eu também fiquei na dúvida!
– Você sempre faz esse trajeto?, perguntei.
– Não, eu tinha ido visitar uma amiga em Amersfoort.
– Ah, porque eu faço esse trajeto todos os dias. Assim, se você me ver no trem, sou eu!, disse.
Silêncio…
De repente outra mulher, que também estava no vestiário entrou na conversa:
– “Se você me ver no trem, sou eu!” – Essa frase soa um pouco rara…
As outras mulheres que também estavam no recinto começaram a rir. Uma outra olhou pra mim e disse, com um sorriso meigo no rosto:
– É claro que se ela te ver no trem é você!
E, eu, rindo e sem entender o problema, repeti:
– Claro, se ela me ver no trem, sou eu! Ou não?
Ninguém me contradisse.
Me despedi das meninas, mas fiquei com aquela conversa na cabeça.

No caminho de volta para casa, pedalando, traduzi o que havia dito em holandês para o português. Tecnicamente o que disse até poderia estar correto (se ela me visse, é claro que ela estaria me vendo), mas na minha língua materna eu jamais usaria essa frase. Talvez dissesse algo como “Se você ver alguém que se pareça comigo, é bem provável que seja eu”.

Acredito que esse tipo de falha aconteça porque o holandês continua sendo um idioma artificial para mim; simplesmente reproduzo palavras que estão armazenadas em algum arquivo do meu cérebro. E talvez seja por isso que algumas vezes uso um “ele” para me referir a uma mulher ou sento “em cima do trem” (op de trein), quando, na verdade, deveria sentar “no trem” (in de trein).

Ou você tem uma outra explicação? Se, sim, por favor, comente aqui! Estou curiosa!

O indiano da Damrak

Como a maior parte dos turistas, ando na Damrak como se procurasse algo. Procuro o Gandhi.

A Damrak é uma das ruas mais movimentadas de Amsterdã. Liga a estação central de trem à praça Dam. Motivo pelo qual a larga calçada está sempre cheia de gente, cheiros e ruídos. Damrak é repleta de restaurantes e lojas de souvenirs. O museu do sexo também fica nesse calçadão.

“Saindo da estação central, será o primeiro indiano que verás na Damrak”, facilitou S. No entanto, poucos são os indícios de que ali há um restaurante de qualidade. Logo na entrada do corredor há muitas fotos de homens numa sauna.

Mas no fundo há duas portas: a da esquerda dá para a sauna e a da direita para o restaurante. Atrás da porta de vidro, à direita, vejo uma mulher com trajes típicos indianos. Somente quando abro a porta e sorrio de volta para ela é que percebo que a indiana é de papelão. Em seguida um homem com roupas ocidentais me saúda com um ‘welcome’. Ele tem sotaque indiano.

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Alemães que falam holandês

31 - 01 - 2011 Comentários desligados

J. curte a cultura holandesa: assiste televisão e ouve rádio holandeses, cursa holandês e sonha em morar em Amsterdã, cidade que frequenta no verão por causa dos festivais de música e teatro. Fui visitar a amiga alemã e ela me apresentou a algumas de suas amigas.

Primeiro visitamos A., que é belga. Conversamos e rimos muito em holandês. Foi uma tarde agradável em que conversamos como se já nos conhecessemos há muito tempo. Da boca de A, ouvi diversas expressões ou palavras que os holandeses que conheço não usam. Achei original quando, no final de nosso bate-papo ela falou ‘het was ontspannend!’ ao invés do ‘het was gezellig!’

Mais tarde nos encontramos com Z. num café. Logo na entrada, o barman cumprimentou J. em neerlandês: ele é flamengo. E embora Z. seja alemã, fala holandês fluente, perfeitamente e sem sotaque. A razão: o amor.

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Casamento turco-holandês

Quando G me ligou para convidar para sua festa de casamento, foi logo avisando que a festa seria turca. “Mas serviremos bebidas alcólicas”, garantiu.

– Como é o esquema do presente?
– Não precisa dar nada, respondeu a noiva
– Mas gostaria muito de dar algo a vocês!
– Bem, costuma-se dar dinheiro e ouro, disse ela, em tom confessional.

Imagino que um casamento entre descendentes de turcos que nasceram e cresceram na Holanda é diferente de um casamento entre turcos na Turquia. Compartilho por aqui alguns dos momentos que me chamaram a atenção.

Hora da festa
No convite estava escrito que a festa era das 18:00 às 00:00. Estipular hora para a festa acabar, por exemplo, é algo que vejo com frequência aqui na Holanda. E chegar na hora marcada para começar também é algo que observo ser comum para os holandeses. Ao chegarmos, por volta das 18:30 percebemos que a maioria das mesas estava vazia; apenas os convidados holandeses já haviam chegado. Os demais convidados, de ascendência turca ou de outras nacionalidades, foram chegando mais tarde. Um casal de iraquianos, por exemplo, só saiu de casa após a partida de futebol em que o Iraque estava jogando.

Por volta das 20:30 os noivos chegam. A festa realmente começa.

O vocalista da banda os saúda em turco e o casal é conduzido à pista de dança, onde bailam várias valsas, também com membros da família. Após o jantar, um DJ tenta agradar todos os convidados: cada música que toca vem de uma parte do mundo. E ainda que eu tenha curtido a ideia, percebo que não tenho a experiência necessária para mudar de ritmo a cada música, que pode ser cubana, estadunidense ou turca.

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Solomon Burke & De Dijk

25 - 01 - 2011 Comentários desligados

Solomon Burke faleceu no aeroporto de Schiphol em 10/10/10. Dois dias depois ele faria um show com a banda holandesa De Dijk. Como é que essa parceria aconteceu?

Essa história é contada num episódio do podcast Global Hit dedicado às lendas da música mundial que faleceram no ano passado. Nele, há uma homenagem especial a Solomon Burke. Huub van der Lube, do De Dijk, é um dos entrevistados: clique e ouça (em inglês)

Solomon Burke gravou seu último CD com o De Dijk. Em Hold on Tight ele interpreta vários dos sucessos da banda holandesa. As músicas que compõem esse álbum foram traduzidas do holandês para o inglês. Uma impressão das gravações:

De Dijk
Solomon Burke

Leia (e ouça) também:
Giovanca
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Uma paloma blanca e holandesa

O Jardim da Paz

Numa bela tarde de verão, pedalava tranquilamente pela ilha de Schiermonnikoog e explorava ciclovias que não conhecia.

Já estava bem afastada da vila quando algo me chamou a atenção.À esqueda da ciclovia que pedalava li a palavra Vredenhof numa placa. “Vrede – paz, Hof – jardim”, traduzi mentalmente.

E imaginei um jardim gramado. Também ouvi o barulho de uma pequena queda d’água, um laguinho, uma imagem de Buda ou Shiva, um poster de Gandhi. Em uma área mais afastada, em baixo de algumas árvores, imaginei pessoas praticando tai-chi-chuan ou yoga e vi ainda banquinhos para aqueles que quisessem contemplar a paisagem ou meditar.

Com todos esses clichês na minha cabeça decidi virar à esquerda e ver onde a estradinha de cascalhos ia me levar. E era realmente um lugar silencioso, não exatamente como eu imaginava…

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A Holanda segundo o Jornal da Record

Na minha opinião, esta série de reportagens é interessante por abordar assuntos como a prostituição e drogas com seriedade, por sair de Amsterdã e mostrar diversas cidades holandesas e o que há de mais avançado no que diz respeito à convivência/luta dos holandeses com as águas, além do porto de Roterdã, das bicicletas e dos pontos turísticos mais visitados.

As reportagens foram exibidas durante uma semana no Jornal da Record no final de agosto de 2010.

Parte 1: A liberdade holandesa


Parte 2: Um país abaixo do nível do mar

Parte 3: bicicletas

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