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Posts Tagged ‘Aprender holandês’

A excursão do inburgeringscursus II

Parte II do capítulo 18 do livro Vinexvrouwen, de Naima El Bezaz.

A professora estava em pé ao lado do motorista com o microfone em frente aos seus lábios enquanto olhava radiante para a classe.

“Senhoras e senhores, hoje nós temos aqui uma escritora. Uma escritora é alguém que escreve. Então, não simplesmente em folhas soltas, mas livros de verdade. Livros que você pode comprar na loja ou, no caso de vocês, emprestar na biblioteca.”

As pessoas no ônibus ouviam com atenção. Na frente, sentava-se um homem alto e magro e que fazia anotações. Não tinha ninguém sentado ao lado dele.

“Muito bem, Omar”, disse a professora. “Mais um pouco e eles poderão também pedir um livro escrito por você emprestado”.

“Isso só pode ser praga de Deus”, murmurei.

“Você disse alguma coisa?” perguntou a mulher.

“Eh, não, não”.

“Muito bem. Primeiro eu vou rever o básico com eles. Naima, sente-se ali, ao lado de Omar. Ele é o homem bem preto que escreve o tempo todo. Depois eu passo a palavra pra você”.

Eu caminhei na direção do somali e desabei ao lado dele.

Uma boca cheia de dentes perfeitos e branquíssimos sorriu para mim.

“Naima, você também precisa prestar a atenção. Eu sei que você foi criada aqui, mas não totalmente. Então… a Holanda é o país da liberdade. Nós lutamos pela liberdade de expressão na guerra. Aqui tudo é tolerado, mesmo se é proibido. Somos o país da liberdade de crenças, da tolerância religiosa. Nós damos muito dinheiro aos pobres na África.”

“E ainda mais à União Europeia”, disse Omar, com um sotaque.

“Omar, você disse algo?”

Ele nega, balançando a cabeça fortemente.

“Eu acho que você falou. Pode partilhar conosco, porque nesse país você é livre, pode dizer o que quiser, pode perguntar o que quiser e sempre vai continuar sendo respeitado. Vivemos em um país feliz. Os estadunidenses pensam que os Estados Unidos é o país da liberdade, mas eles falsificaram a história deles”.

Ela me olhou e acenou.

“Agora é sua vez.”

O ônibus partiu. O motorista olhava atravessado. Eu o compreendia totalmente.

“Eh… eu sou Naima e eu tinha quatro anos quando eu cheguei na Holanda”.

“Refugiada?” perguntou Omar.

Eu fiz que não com a cabeça.

“Eles trucidaram a sua família como os hutus e os tutsis?” perguntou um outro.

Fiquei boquiaberta.

“A sua mãe se separou e casou com um holandês e por isso teve que fugir da família dela? Ela tinha medo de vingança familiar?”

“Não, Fadima”, disse a mulher ao lado dela. Turcos não são iguais aos marroquinos. Turcos matam pessoas. Marroquinos só batem uns nos outros.

“Então”, continuei.

“Mas qual é a diferença entre marroquinos e turcos?” perguntou uma bonita caboverdiana.

Omar se vriou para ela e disse: “Marroquinos são turcos com cabelos cacheados”.

“É isso?” ela perguntou.

“Eh… nós temos cachos”, respondi. “Mas os países são bem distantes e falamos idiomas diferentes. Eu acho que isso vocês sabem”.

Onde é que eu fui parar? Desesperada eu olhei para a professora. “Diga, senhora, para onde é que nós estamos indo mesmo? Talvez para Keukenhof, Madurodam ou Zaanse Schans?

A professora ficou de pé e tomou o microfone da minha mão. “Sim, meus queridos. Eu mantive o segredo por muito tempo. Porque eu e o time pensamos muito bem sobre o melhor destino para vocês e o lugar que vamos visitar chama-se Marken.

“Marken?” perguntei. “Eu havia pensado em Staphorst“.

“Hahahaha, essa é boa, Staphorst. Não, vamos pra Marken. Talvez iremos para Urk ou Volendam da próxima vez. Há tantas cidadezinhas tipicamente holandesas. Nesses vilarejos não se pode destruir nada nem construir prédios modernos. Temos que honrar e respeitar nossa história”.

Ela estava um pouco ofegante. Eu dei um passinho para o lado.

“Vai sentar”, disse o motorista. “Agora a estrada fica um pouco perigosa”.

Eu não deixei ele repetir.

“Legal, né?” disse Omar, fechando seu caderninho com capa de couro preto.

“O que você escreve tanto?”

“Tudo,” disse ele. “É tão especial poder morar num país onde você pode dizer tudo o que você quer. Sem vergonha, como na Somália. Liberdade. Eu me sinto abençoado. Allah é grande! Você conhecer Marken?”

“Não que eu saiba”.

“Você aqui já há 30 anos e conhece Marken não?” gritou uma caboverdiana que sentava atrás da gente. “Eu acho você precisa também fazer curso de integração”.

“Bem, hoje eu estou fazendo com vocês” disse isso docemente e pensei profundamente no que eu iria contar a eles daqui a pouco. O que eu sabia sobre Marken?

continua.

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A excursão do inburgerinscursus I

A excursão do ‘inburgeringscursus’ I

Terminei de ler ‘Vinexvrouwen, de Naima El Bezaz. São crônicas baseadas na vida real da escritora holando-marroquina. Ela tem um humor ácido e diz coisas sobre os holandeses que os deixa furiosos, mas também diz coisas sobre os marroquinos que os deixa furiosos, a ponto de ser ameaçada de morte.

Mas vou parar de introduzi-la e deixar que você mesmo avalie o que ela tem a dizer. Compartilho uma dessas crônicas por aqui. Vale lembrar que não sou tradutora, muito menos de crônicas. Espero que possa transmitir um pouquinho do humor dela.

Como escritora conheci muitas vilarejos e cidades nos último anos, bem como seus moradores. Em meados dos anos noventa fiz minha primeira conferência junto com Kader Abdolah. Em Kampen. Após a leitura em voz alta de um trecho do meu primeiro romance, perguntei se haviam perguntas, mas o povo de Kampen pensou que eu era uma espécie de pastor, porque eles me fitaram com rostos imóveis e eu os fitei de volta, até que finalmente Adbolah me salvou. Me lembrei disso agora, mas esse capítulo vai tratar de outra coisa. É que nos últimos anos me deparei com as mais raras situações durante essas conferências. Uma vez eu recitei em um café frequentado pelos motoqueiros dos Hells Angels. Todo mundo estava tão mareado que ninguém falava qualquer palavra que fizesse sentido; nos bastidores ou estavam tendo ataques de risos ou dormiam embriagados.

Chegou um pedido de Roterdã ao meu agente literário para que eu fizesse uma palestra para alunos do curso de integração (inburgeringscursus). Pessoas vindas de diferentes cantos do mundo. Eu espero que eles já tenham aprendido um pouco do idioma.

Eu pego o trem e tento me preparar.

Mas como tudo na vida, as coisas não saíram conforme o esperado. Havia um ônibus enorme na frente do prédio. A professora apertou minha mão e apontou para o ônibus.

‘Olha, é ali que vai acontecer’.

‘No ônibus?’

Ela confirma com a cabeça.

‘Como uma guia de viagens?’

Ela sorri toda orgulhosa. ‘Não é ideal? Porque você também não é daqui, então você também vai ver coisas como eles, que nós já não vemos’.

‘No ônibus?’, repeti totalmente surpresa.

‘Há um microfone e eu sento ao seu lado. E, claro, você não precisa ler nada, porque eles não vão entender mesmo. Mas os conhecimentos básicos eles possuem. Por via das dúvidas, eu dou o exemplo e depois você começa o seu trabalho.

Nesse meio tempo, a turma do curso de integração já havia entrado no ônibus. Haviam muitos homens negros e magros, deveriam ser somalis, mulheres gordas, ou melhor caboverdianas, senhoras com véu islâmico, evidentemente marroquinas porque elas me olharam por muito tempo e tinham bundas nas quais você poderia descansar uma bandeja. Trinta pessoas pra ser exata. Todos entraram no ônibus, a professora também. Eu continuei em pé, do lado de fora e tentei me habituar à situação.

‘Tem alguma coisa errada”, disse a mim mesma. ‘Isso não pode estar acontecendo’. Olhei em volta e esperava que eu estivesse em frente do prédio errado, mas infelizmente: eu estava no destino.

‘Naima, menina! Você vem? Estamos te esperando’.

‘Eu não conheço nada de Roterdã, só o bairro chinês, onde mora uma amiga minha’.

A professora riu, compreensiva. ‘Você é doidinha, não? A gente não vai ficar aqui. A gente vai pra Holanda de verdade. A gente vai em busca da alma do país, das origens, do nosso orgulho, do Século de Ouro”.

Será que ela havia comido cogumelos? me perguntei. Mas eu não podia fazer nada a não ser entrar no ônibus porque o contrato já estava assinado e eu não ia devolver o dinheiro.

continua…

Um idioma artificial

No vestiário, após a aula de dança:
– Te vi no trem essa semana.
– Ah, então era você! Eu vi uma menina que realmente se parecia muito com você, mas fiquei na dúvida; por isso não te cumprimentei. – respondi.
– Sim, eu também fiquei na dúvida!
– Você sempre faz esse trajeto?, perguntei.
– Não, eu tinha ido visitar uma amiga em Amersfoort.
– Ah, porque eu faço esse trajeto todos os dias. Assim, se você me ver no trem, sou eu!, disse.
Silêncio…
De repente outra mulher, que também estava no vestiário entrou na conversa:
– “Se você me ver no trem, sou eu!” – Essa frase soa um pouco rara…
As outras mulheres que também estavam no recinto começaram a rir. Uma outra olhou pra mim e disse, com um sorriso meigo no rosto:
– É claro que se ela te ver no trem é você!
E, eu, rindo e sem entender o problema, repeti:
– Claro, se ela me ver no trem, sou eu! Ou não?
Ninguém me contradisse.
Me despedi das meninas, mas fiquei com aquela conversa na cabeça.

No caminho de volta para casa, pedalando, traduzi o que havia dito em holandês para o português. Tecnicamente o que disse até poderia estar correto (se ela me visse, é claro que ela estaria me vendo), mas na minha língua materna eu jamais usaria essa frase. Talvez dissesse algo como “Se você ver alguém que se pareça comigo, é bem provável que seja eu”.

Acredito que esse tipo de falha aconteça porque o holandês continua sendo um idioma artificial para mim; simplesmente reproduzo palavras que estão armazenadas em algum arquivo do meu cérebro. E talvez seja por isso que algumas vezes uso um “ele” para me referir a uma mulher ou sento “em cima do trem” (op de trein), quando, na verdade, deveria sentar “no trem” (in de trein).

Ou você tem uma outra explicação? Se, sim, por favor, comente aqui! Estou curiosa!

Alemães que falam holandês

31 - 01 - 2011 Comentários desligados

J. curte a cultura holandesa: assiste televisão e ouve rádio holandeses, cursa holandês e sonha em morar em Amsterdã, cidade que frequenta no verão por causa dos festivais de música e teatro. Fui visitar a amiga alemã e ela me apresentou a algumas de suas amigas.

Primeiro visitamos A., que é belga. Conversamos e rimos muito em holandês. Foi uma tarde agradável em que conversamos como se já nos conhecessemos há muito tempo. Da boca de A, ouvi diversas expressões ou palavras que os holandeses que conheço não usam. Achei original quando, no final de nosso bate-papo ela falou ‘het was ontspannend!’ ao invés do ‘het was gezellig!’

Mais tarde nos encontramos com Z. num café. Logo na entrada, o barman cumprimentou J. em neerlandês: ele é flamengo. E embora Z. seja alemã, fala holandês fluente, perfeitamente e sem sotaque. A razão: o amor.

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Um pouco de progresso…

Começo a perceber que tenho uma certa fluência no holandês. Não que fale 100% correto ou que eu não tenha sotaque. E a fluência depende muito de com quem em falo e em quais circunstâncias.

Num ambiente descontraído como no festival Over Het IJ consigo formar frases completas, as pessoas me entendem e nem sequer me perguntam de que país eu sou.

Este progresso se deve ao fato de eu poder abrir mais a boca em holandês. Tudo começou nos festivais de teatro de 2008, na condição de voluntária.
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Temporada Bostheater 2009

15 - 06 - 2009 Comentários desligados

foto: Serge Ligtenberg

foto: Serge Ligtenberg

A temporada de teatro ao ar livre no Amsterdamse Bos começou mais cedo.

Com isso, a produção do Bos Theater tenta driblar as mudanças climáticas, já que nos anos anteriores muitos espetáculos tiveram de ser cancelados por causa das chuvas de verão.

O cenário é a ilha onde vivem Próspero, Miranda e Calibã. A trupe do Bostheater interpreta De Storm.

A batateira não conseguiu compreender Sir William Shakespeare em holandês. Mas entendeu a história mesmo sem antes ter lido ou visto A Tempestade. A interpretação, o trabalho de corpo e a música são bons motivos para aplaudir de pé os atores do Bostheater. O cenário e o figurino também são surpreendentes.

De Storm fica em cartaz até nove de agosto.

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Deixa pra lá

Entro no pet shop e cumprimento o balconista com um ‘goedemorgen’. Pego alguns pacotes de ração seca, algumas latas de ração úmida e me dirijo ao balcão:

– Mag ik een anti-vlooienmiddel?
– Bayer of Frontline?
– Frontline.
– Met drie of zes pippeten?
– Drie.

Ele pega uma embalagem do produto que está na prateleira, coloca junto com as demais mercadorias, dirige-se ao caixa e faz a soma. Ele diz quanto eu devo, eu pago e ele me faz uma pergunta em voz baixa, da qual eu só ouço a última palavra: elkaar.
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